Música e Publicidade

Por Fernando Ribeiro H.

É meia-noite e pouco, e eu assisto ao Jô. As pessoas são fãs do Jô, e não da Rede Globo. Escutam a quem elas conhecem, o Jô, e não a alguém distante, a Globo. Então por que o Jô precisa da Globo? Para que chegue às pessoas com credibilidade, facilidade e audiência. Penso que deve ser o mesmo com aquela dupla inglesa de dance music Groove Armada, que já lançou seis álbuns com vendas totais de 3 milhões de cópias em todo o mundo. Ela precisa da gravadora Columbia para chegar às pessoas com credibilidade, facilidade e audiência.

Credibilidade? Convenhamos, gravadoras não fazem música, elas vendem discos. Não se comunicam com as pessoas diretamente, apenas através dos artistas. Boa parte do público apaixonado por música, mas que nunca teve uma banda ou gravou uma fita demo, não entende a relação entre gravadoras e artistas, não ouve falar das gravadoras e acha indiferente a existência ou não de uma gravadora por trás de uma banda. Então, quem dá credibilidade a um artista é ele mesmo. Com a qualidade de sua música.

Facilidade? Não é fácil, definitivamente, encontrar na rua o CD do álbum Freaky Styley, de 1985. Do Red Hot Chili Peppers eu só encontro o Stadium Arcadium. Sair de casa atrás de CD, além do mais, só eu mesmo. Que coisa anos 90! O jornal gaúcho Zero Hora anunciou, em sua edição de 21 de junho de 2008, o encerramento das operações da última loja da Banana Records. A rede porto-alegrense protagonizou a explosão do mercado fonográfico brasileiro entre 1994 e 1999. Ou seja, CD agora é só em livraria, varejão, sebo, lojas underground ou pela internet.

Audiência? Nos últimos cinco anos, no Brasil, a venda de discos caiu de 75 milhões para 25 milhões. Nos Estados Unidos, passou de 785,1 milhões em 2000 para 511 milhões em 2007. Uma queda de 36%. Na edição de junho da NOIZE, a matéria O fim da demo ressalta o sucesso que a The Eagles conquistou ao fazer um acordo de venda exclusivo com a rede de supermercados Wal-Mart. A banda lucrou quatro vezes mais do que se tivesse um contrato típico da indústria fonográfica. Além disso, a própria falência da Banana Records mostra que esse padrão de loja já ficou no passado. É o sucesso da internet. Bandas internacionais como Radiohead, Coldplay, Nine Inch Nails e Raconteurs, e nacionais como Cansei de Ser Sexy, Ed Motta, Pitty e Cachorro Grande, lançam seus álbuns pela rede virtual. E mais: disponibilizam-nos gratuitamente ou por preços simbólicos em sites como o popular iTunes, protagonizando o que já é uma era catastrófica para as grandes gravadoras.

Você já deve estar sabendo. A Groove Armada rompeu o contrato com a Columbia. E o mais interessante: sua nova casa não é uma gravadora, é uma empresa de bebidas—a Bacardi, a quarta maior do mundo no segmento. Para a Groove Armada, o contrato prevê a gravação de um álbum e a realização de uma série de shows em vários países. Para a Bacardi, a utilização de todas as músicas e clipes do último álbum da dupla em seus anúncios, sem precisar pagar nada a mais por isso.

VOCÊ DECIDE
Diferentes marcas têm traçado estratégias de comunicação que propõem novos modelos de interação com o consumidor. É aí que entra a músic a. Se a publicidade tradicional é uma empresa falando sobre si mesma, a publicidade vinculada à música faz com que a empresa fale a respeito das pessoas. A cumplicidade entre o fã e o artista se torna a cumplicidade entre o consumidor e a marca. São palavras de Marty Neumeier, consultor de branding e autor dos livros The Brand Gap e ZAG: “A marca deve ser o que seu público-alvo é”.

Além de Groove Armada com a Bacardi e The Eagles com o Wal-Mart, outro exemplo de artista vinculado a uma marca é o contrato entre o cantor pop Sting e o fabricante inglês de veículos de luxo Jaguar. A parceria ajudou a multiplicar tanto a venda de carros como a de CDs: as vendas dos automóveis quadriplicaram, e Sting vendeu 8 milhões de cópias em todo o mundo. No Brasil, um bom exemplo é a Levi’s Music, que está tentando conquistar o público jovem apoiando financeiramente novos artistas como Mallu Magalhães, garota-propaganda também em vinhetas da MTV.

Há produtos demais, e há features demais em cada produto. Há mensagens demais na mídia, e há elementos demais em cada mensagem. Dois terços da população brasileira reclamam que se sentem constantemente bombardeados por publicidade. Então, se é para ser bombardeado, que seja por música.

Hoje em dia bandas não necessariamente precisam de gravadoras. Por um lado é resultado do sucesso que grandes ou até mesmo novas bandas estão tendo via internet. Por outro, é a transformação da publicidade. Mais do que isso, bandas que seguem esses novos caminhos afirmam ter mais liberdade: na internet ou através de contratos com marcas, quem vai dizer o que é música boa não é uma gravadora, e sim o público.

Eu desligo a TV e vou cantando R.E.M., Around The Sun, até o computador. Quero ouvir o novo álbum da banda no MySpace.

> NOTA DO EDITOR: “A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerante” (Humberto Gessinger estava certo).


Fonte: http://www.noize.com.br/revistanoize/2008/edicao-15-julho/musica-e-publicidade/

6 comentários:

Fernanda disse...

É, Mai(y)sa!

Esse texto tá tão bom, mas tão bom que não sei se falo que você nasceu pra escrever ou se falo que você nasceu pra música! Huhusahsau! :)))))

Sério mesmo.
Ficou muito bem escrito, informativíssimo e fluido!
Estrelinha dourada! rsrs \o/

noize disse...

parabens pelo blog!

Renata Rangel disse...

ebaaaa nos bomba!!
adorei maisa! parabens XD

Luiza disse...

perai, foi vc q escreveu maisa???

Luiza disse...

pela fonte eu creio q nao, certo?

Maísa Gontijo disse...

Não, não fui eu não! O texto foi retirado do site cujo link está lá embaixo.

 
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