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Cálculos e mais cálculos

Como falar, me pergunto, de algo que eu mal conheço? Planejamento... há dois anos eu diria: cálculos pra um futuro próximo ou não. Eu não estava tão errada, só faltavam alguns detalhes a essa resposta. Hoje não me sinto ainda muito apta a melhorá-la. Para me esquivar do erro, então, convido vocês a uma viagem dos meus pensamentos alimentada pela crônica que segue.


"É o que tem pra hoje"
De Tati Bernardi

Queria ser uma dessas pessoas que chegam rapidamente até o outro lado da praia, mesmo quando é fofa e de tombo.
Que arquitetam planos de vida.
Que começam assistentes e terminam donos.
Que começam miojo e terminam grande evento culinário um sábado sim, um não.
Que não se demoram na hora de olhar o cardápio, a vitrine, o Guia da Folha, os rapazes da noite.
Fico vendo que fulano foi lá, escreveu o roteiro quase um ano de trabalho. Depois foi lá, filmou tudinho, mais um ano de trabalho. Na semana da estréia já estava envolvido em outro projeto. Projetos atrás de projetos. Ah: e fulano tem absoluta certeza que nasceu pra isso.
Fico vendo que fulana foi lá: em 2000 pós, 2001 mba, 2002 carro do ano, 2003 casamento, 2004 casa, 2005 filho, 2006 rotavírus. Uma vida na agenda.
Mas enquanto isso, será que fulano sabe dos 456 livros que poderia ler? Das 456 mulheres que poderia comer? Do pôr do Sol em Fernando de Noronha? Do prazer surreal que é dormir até tarde sem saber que dia é?
Como fulano pode ter certeza que está no lugar certo, na hora certa, no momento certo, com a pessoa certa, se há zilhões de segundos, dias, ruas, bairros, cidades, países e sonhos nesse mundo?
Passo os dias me perguntando. Aquele povo todo, correndo na paulista, se apertando no metrô, parado no trânsito da Marginal, passando crachás, apertando mãos, escovando os dentes naquelas escovinhas que dobram no meio pra caber na bolsa, almoçando em quilos, sorrindo em falso, respirando ar condicionado, sonhando com a bunda alheia, com o salário alheio, com o final do dia.
Eu não consigo ser uma coisa. Não consigo viver por algo. Tenho esse saco sem fundo onde cabe o mundo. Mas cabe tanto, tanto, que vivo vazia. Porque ainda não aprendi a me preencher.
Porque ainda ando por aí meio maravilhada e irritada, caçando meus pedaços, desejos e inspirações. Até que depois de ver um pouco de tudo e todos, eu saiba finalmente que cara e que forma tem o meu mural de recortes, a minha colcha de retalhos.
Mas no meio do caminho se é muito feliz. E esse texto está assim meio estranho porque to escrevendo ele... quem diria: um pouco bêbada. Agora, por exemplo, to feliz porque bebi saquê e cantei “O amor e o poder” em um karaodê louco. To muito feliz. E talvez um pouco bêbada. Odeio crachás. E eu to feliz porque to ouvindo uma versão de “My way” cantada por Gipsy kings e são quatro e cinco da manhã. E porque estou tendo o maior ataque de riso do mundo simplesmente porque nada fez sentido. E que bom que não faz. Como diria meu cabeleireiro gay e com pedras no rim: “é o que tem pra hoje, meu bem”. E eu não me culpo pela minhas pressa em ficar. E eu não te culpo pela sua pressa em ir. É em tantas pressas contrárias que a gente se esbarra pelo mundo e se diverte um pouco.

Tati Bernardi é cronista do
Blônicas (visitado em 20 de julhos de 2007) .

Legal, né? Gosto muito dessa cronista. Mas eu não estou aqui pra falar do que eu gosto. Estou pra falar do que me veio à mente após ler esse texto: planejar ou “carpe diar”? Pensar no futuro ou curtir o momento? Sim, é possível aproveitar cada instante calculado; porém a dúvida levantada é a escolha entre o cálculo e a espera pelo inusitado.
A filosofia Carpe Diem (“colha o dia” ou “aproveita o momento” em latim) propõe que você não se preocupe com o que ocorrerá no próximo tempo. Para os seus adeptos, a vida é simples: você acorda e deixa acontecer naturalmente, sabe-se lá o que, mas deixa. Ir ao primeiro bar que aparecer, beber até ter de ir ao banheiro, beber para voltar ao banheiro, afirmar que não está bêbado, subir na mesa e tirar (calma...) o cinto, enfim, se jogar.
Outra pergunta surge. De onde veio o dinheiro da gasolina, da cerveja, do cinto? Talvez do bico na loja da esquina, do salário no tele marketing ou da filmagem dos casamentos. O fato é que pra curtir essa noite foi preciso ganhar esse papel colorido e sujo que vale muita coisa. Antes de ganhá-lo, calculou-se que ele chegaria e seria gasto. Mesmo que inconscientemente, fez-se um planejamento. Minha resposta inicial volta à tona.
Decidir o que será feito do nosso futuro é muito exigido atualmente. Haverá água no mundo? Você viverá mais de 80 anos? Existe vida noutros planetas? Não, ninguém sabe a resposta. Porém todos, ou a maioria das pessoas, esperam que só o melhor ocorra e para isso, determinadas atitudes devem ser tomadas agora: só tomar coca-cola, comer alfaces e construir um abrigo no quintal de casa. Admitir e tornar prática tais atitudes é planejar e agir em prol de um futuro, sinceramente, duvidoso.


 
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